A onda de ataques a estudantes indígenas no campus Trindade da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), entre os dias 5 e 7 de julho, fez com que o direito de acesso à educação se transformasse em medo e insegurança.
Segundo uma moradora do Alojamento Estudantil Indígena da universidade, os estudantes não se sentem seguros e afirmam que os ataques recentes não foram casos isolados.
“Não temos um espaço cercado. Não temos uma guarita com vigilante. Ficamos muito expostos no campus e vivemos um momento tenso”, diz a moradora, que preferiu não se identificar.
Estudantes indígenas relatam três ataques em sequência no campus Trindade
Segundo a UFSC, o primeiro ataque, ocorrido na manhã de sábado (5), próximo ao prédio onde funciona o DCE (Diretório Central dos Estudantes), foi causado após uma abordagem de policiais militares não identificados. A entrada dos agentes da força pública teria acontecido sem solicitação da SSI (Secretaria de Segurança Institucional).
No episódio, seis indígenas sofreram agressões. Uirahu Xavier Araujo Guajajara, estudante do curso de Direito, de 26 anos, estava no grupo e afirmou à reportagem do ND Mais que, desde o início, a abordagem policial foi truculenta.
“Estávamos conversando e [os agentes] já chegaram gritando e atirando no chão com bala de borracha. Pedi a identificação, já que não tinham. Quando questionamos a abordagem, nos jogaram gás de pimenta”.
A reportagem do ND Mais entrou em contato com a assessoria de comunicação da Polícia Militar para entender o motivo da ação, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.
Os estudantes indígenas relataram que o segundo ataque ocorreu na madrugada de domingo (6), por volta das 2h. Guajajara estava confraternizando com outros dois colegas em frente ao alojamento onde residem, após um churrasco de despedida de um “parente” — termo usado para designar outro indígena — que iria viajar.
Os três foram surpreendidos por um grupo de cerca de dez pessoas, com aparência de 15 a 19 anos, usando patinetes elétricos, que insultaram e arremessaram pedras contra os indígenas. Gritos como “bando de índios”, “o lugar de vocês não é aqui” e “vagabundos” foram proferidos.
A mesma moradora do Alojamento Estudantil, que preferiu não se identificar, contou que os estudantes agredidos ficaram com hematomas no corpo e que um deles teve cortes no nariz e na orelha.
A Polícia Militar foi chamada, mas não entrou no campus, dirigindo-se apenas à entrada da universidade, o que impossibilitou o registro da ocorrência.
O terceiro e mais recente ataque ocorreu na segunda-feira (7), por volta das 20h. O mesmo grupo de patinete teria retornado ao alojamento com mais pessoas, promovendo novos ataques. Novamente, os agressores gritavam “fora, índios” e “seus vagabundos”.
Os gritos fizeram com que os residentes saíssem para verificar o que ocorria, momento em que pedras foram atiradas contra eles. A Polícia Militar foi novamente acionada e, desta vez, entrou no campus, quando o caso foi registrado.
No último ataque, Guajajara estava em sala de aula realizando sua última prova do semestre. Ele afirmou não se sentir protegido pela segurança da UFSC e se disse indignado com a postura das autoridades. “Fez parecer que ali não é nosso lugar”.
O estudante de Direito relatou sentir medo após os episódios. “Após o primeiro ataque, a segurança da UFSC nos disse que não havia muito o que fazer. Fiquei pensando que poderiam voltar e fazer alguma maldade. Pegar a gente sozinho ou em número menor”.
Ele conta que tem recebido apoio dos colegas do alojamento e mensagens de solidariedade de alguns professores e estudantes. Também valoriza o papel do movimento estudantil e indígena da universidade.
Segundo Guajajara, a comunidade acadêmica precisa entender que os indígenas também podem ocupar espaços que historicamente os excluíram. “A luta indígena é diária, e estar na instituição já é uma luta”.
UFSC denuncia ataques e amplia vigilância no entorno dos alojamentos
Na quarta-feira (9), em nota oficial, a UFSC repudiou os ataques contra estudantes indígenas e informou que está reunindo imagens para apurar os fatos relacionados à ação dos policiais militares.
Alojamento de estudantes indígenas da UFSC foi atacado duas vezes – Foto: Reprodução/Maria Eduarda Vieira/Fatual UFSC
Segundo a SEAI (Secretaria de Aperfeiçoamento Institucional), o MPSC (Ministério Público de Santa Catarina), o MPF (Ministério Público Federal) e a Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos foram comunicados sobre os casos. A universidade afirma que, até o momento, nenhuma autoridade policial solicitou acesso às imagens do circuito de segurança.
A nota da Administração Central informa que a SSI adotou medidas emergenciais para ampliar a vigilância no entorno dos alojamentos indígenas.
Entretanto, à reportagem do ND Mais, a UFSC informou que haverá redução no número de vigilantes terceirizados “por falta de recursos financeiros, imposição dos cortes orçamentários do governo federal”.
A universidade também busca uma reunião com o comandante do 4º Batalhão da Polícia Militar “com o objetivo de revisar protocolos e reforçar o respeito à autonomia universitária e aos direitos da comunidade acadêmica”.
Para acolher os estudantes indígenas vítimas, a UFSC atua com assistentes sociais e psicólogos capacitados. Órgãos institucionais ligados à Proafe (Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Equidade) estão acompanhando os estudantes indígenas afetados pelos ataques ocorridos entre 5 e 7 de julho.
Fonte: NDMAIS




