Uma iniciativa inédita vai mudar a economia indígena em Mato Grosso do Sul. Nesta quinta-feira noauditório do Ministério Público na Rua da Paz, em Campo Grande, foi fundada a COOPIMS – Cooperativa dos Povos Indígenas de Mato Grosso do Sul.
É a primeira vez que diferentes etnias do estado se organizam em uma única cooperativa de alcance estadual. A ideia, proposta pelo Fórum dos Caciques (FOCAMS), é unir produção, saberes ancestrais e força de trabalho para gerar renda com autonomia, protegendo a cultura, a medicina tradicional e até o uso de biotecnologia.
A fundação já nasce forte. São 37 lideranças assinando o ato – caciques, presidentes de associações, professores, produtores, artesãos e profissionais com curso superior. O alcance impressiona: 7 municípios, 6 terras indígenas e 15 aldeias, do Pantanal de Porto Murtinho, no território Kadiwéu, passando por Aquidauana, Dois Irmãos do Buriti, Anastácio e pelas aldeias urbanas de Campo Grande, até Dourados e Caarapó no Cone Sul.
A criação da COOPIMS responde a uma contradição: MS é o 3º estado com mais indígenas no Brasil – 116.346 pessoas segundo o IBGE 2022, presentes nos 79 municípios – mas a produção das aldeias ainda é vendida sem estrutura, sem nota e na mão de atravessadores. Campo Grande (18.439 indígenas), Dourados (12.054) e Aquidauana (9.428), os três maiores municípios nessa lista, estão justamente entre os fundadores.
Com a cooperativa, o gado do povo Kadiwéu, a agricultura familiar Terena, o artesanato e o conhecimento sobre o Cerrado e o Pantanal ganham CNPJ próprio. Isso permite venda em grande escala, acesso a crédito, participação no PAA e no PNAE da alimentação escolar e proteção de marcas coletivas. É o que os organizadores chamam de etnodesenvolvimento: ganhar dinheiro sem abandonar o modo de viver de cada povo.
A articulação é apoiada pelo Conselho Municipal dos Direitos dos Povos Indígenas (CMDDI), pelo Instituto Cacique Enir Terena (ICET), presidido por Maria Auxiliadora Bezerra, com governança técnica de Germano Coelho Ramos Rocha-Silva, e pela consultoria jurídica do Dr. Delso Silva Neves. O Ministério Público de MS, por meio da 67ª Promotoria de Justiça do Dr. Paulo César Zeni, cedeu o espaço e apoia institucionalmente o projeto.



